"É dificíl não se gostar do Vitória de Guimarães, descontando os excessos de franjas perturbadoras da sua massa adepta vibrante e da injustificada tendência por elas manifestada para o desacato a propósito de insignificâncias e para o triste espectáculo que tanto gozo lhes dá em arrancarem e arremessarem cadeiras contra fantasmas.
Dá a ideia de sentirem necessidade de o fazer, como forma de aliviarem fúrias e disfarçarem frustrações. À parte esses tiques de tola afirmação territorial, trata-se de um clube de alma imensa, o espelho de uma região acossada por graves problemas sociais. É o preço da crise, de políticas desajustadas e de governações cuja responsabilidade é igual a zero. Quem vier a seguir que feche a porta...
A gestão dos clubes tem sido também um pouco assim, daí que se olhe com preocupação para a situação de muitos deles. Apesar do potencial que alguns possuem, a verdade é que não aprendem a dar o tal salto, como costuma dizer-se. Não são capazes de investir na qualidade, nem tão-pouco de elaborarem um programa sensato e credível, executado por etapas, de uma forma consistente. Pelo contrário, esgotam-se em cada instante e sem sentido de futuro. Navegam junto à praia, carecem de ambição, vivem de intuição presidencial e, regra geral, acabam atolados em dívidas gigantescas. Ao futebol português falta-lhe uma classe média estável, irreverente e reinvindicativa. Que acredite ser possível questionar a intocável hegemonia dos três grandes, como o fez o Boavista em 2001, e o Belenenses, em 1946. Quer isto dizer que se teimarem os não grandes em só representarem papel de meninos obedientes, resignados à sua inferioridade, no mais simpático dos cenários, com base naquele intervalo de 55 anos, apenas em 2056 poderemos dar vivas a um terceiro campeão desalinhado.
Não tem de ser assim, aí que aprecie a obstinação de António Salvador, presidente do Braga, em contrariar essa ordem fatalista e ser ele próprio a incluir o seu clube na selectiva lista de candidatos ao título. Hipóteses de ser primeiro, muito reduzidas, tudo leva a crer. No entanto independentemente dos anseios e dos investimentos de todos os pretendentes ao trono, campeão só pode haver um, razão pela qual nada o inibe de se intrometer na discussão e reclamar um estatuto que, embora em termos de grandeza não o coloque, por ora, em plano de igualdade com Porto, Benfica e Sporting, como é fácil de compreender, lhe concede o privilégio de usufruir dos mesmos direitos e regalias. A isso obriga o notável desempenho desportivo do emblema bracarense durante o consulado de Salvador. Sempre entre os da frente e com especial relevância para o 2º lugar na Liga em 2010, em que correu ombro a ombro com o Benfica até á última jornada, e para a entrada na fase de grupos da Champions e a presença na final da Liga Europa, este ano. Tão extraordinárias conquistas exigem respeito.
O SC Braga já não é um simples representante de uma cidade ou um distrito. por irrepreensível mérito, o seu prestígio rasgou fronteiras e é hoje aceite e reconhecido pela Europa do futebol.
Passo gigantesco - para regressar ao ponto de partida desta crónica - que o Vitória de Guimarães ainda não conseguiu dar. Parece condicionado por uma dupla personalidade, que o transcende no interior das muralhas do castelo e o banaliza fora delas. Falta-lhe dimensão, não sendo capaz de se libertar do grilhão regionalista que tem servido de alimento à rivalidade com o vizinho de Braga. A diferença entre os dois é precisamente essa: para um, a concorrência minhota, tal como nos habituamos a interpretá-la, deixou de ser vista como factor de crescimento, para o outro continua a ser encarada como factor de sobrevivência..."
Fernando Guerra (abola)
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