sexta-feira, 7 de outubro de 2011

«Sempre fui um duro»


Fernando Couto

«Flash-back» de Fernando Couto, 20 anos de carreira em análise, momentos bons e momentos maus revisitados. E os olhos a saltar das órbitas perante a frontalidade e a clarividência de uma das personalidades mais emblemáticas do futebol português: «Duro? Eu fui assim e de nada me arrependo.»

- A UEFA homenageia os jogadores com mais de cem internacionalizações e você e Luís Figo estão citados no grupo. Que significado tem para si esta cerimónia e o facto de ter terminado a carreira com 110 jogos pela Selecção Nacional?
- Representa um prémio pessoal mas também acho que legitima Portugal e os clubes onde joguei. Sempre representei a Selecção Nacional de corpo e alma e apesar de ter grande parte da minha carreira ter acontecido no estrangeiro o regresso a Portugal para jogar pela Selecção era sempre extremamente forte, era sempre um prazer imenso vir cá. Para além disso fui o primeiro a atingir a centena de jogos, isso ninguém me pode tirar, mas espero que muitos mais jogadores atinjam esse número e o superem.

- Já olhou para a lista de homenageados?
- É um orgulho estar entre jogadores que fazem parte da história do futebol.

- Será possível definir o momento mais marcante na sua carreira?
- Tenho uma enorme dificuldade em identificar episódios do passado, vivo mais o momento, mas talvez possa recordar o jogo com a Inglaterra, em Eindhoven, e a forma como ele terminou. Estávamos a perder 0-2 aos 18 minutos, vencemos 3-2. Recordo esse momento com um sentimento muito especial.

- É durante o Euro 2000 que é distinguido pela UEFA com o prémio fair-play depois de ter pedido aos adeptos portugueses respeito pelo hino da Alemanha.
- Esse episódio tem uma situação curiosa, quando alguém da Federação me falou da homenagem, que aconteceu antes do jogo com a Turquia, eu respondi: «Prémio fair-play para mim?» Não imaginei que pudesse ser relativo àquele episódio. Na altura tive uma reacção emocional, o hino de um país deve ser respeitado e foi respeito que pedi aos nossos adeptos. Eles entenderam o gesto e pararam com os assobios.

- Você, um durão, a envolver-se num gesto de grande dignidade.
- Sempre fui um duro e ainda agora, mesmo quando jogo a brincar, sou um duro, não gosto de perder. É algo que está dentro de mim, uma vontade interior, esta atitude faz parte do meu percurso. Por vezes havia excessos, situações que não podiam acontecer, mas eu era e sou assim e não me arrependo de nada.

- Curioso, o bicho do FC Porto era Jorge Costa e não você, que reunia todas as condições para ser reconhecido assim.
- Um pouco culpa essa minha alcunha, devo admitir. Jorge Costa tinha uma força colossal, era impressionante a nível físico. Se podia ser eu o tal bicho? Talvez...

- O cabelo comprido também intimidava. Não o cortava para manter a imagem de agressividade?
- Ter deixado crescer o cabelo foi algo ocasional. Nos primeiros tempos adorava ter o cabelo curto mas por brincadeira deixei-o crescer e isso até acabou por ser fundamental para a minha imagem, ficou como marca. A certa altura voltei ao cabelo curtinho, quando estava no Barcelona, mas não era eu, deixei crescê-lo outra vez. Com a experiência era eu a dar as tesouradas, ia cortando a franja, foi assim durante muitos anos. Agora continua grande mas não tão grande assim.