"O SC Braga é uma forma de estar e de viver, é um querer e acreditar. É, sobretudo uma paixão que alimenta o sonho de chegar mais longe com o orgulho de ser Gverreiro do Minho."
sexta-feira, 30 de março de 2012
"Ser ou não ser [do Braga], eis a questão"
Duzentos anos passaram desde que um senhor alemão, conhecido pelo seu bigode farfalhudo, defendeu que uma das piores limitações dos oprimidos e pobres em geral, e aquilo que os torna inferiores em que relação à classe dominante, é "nada mais, nada menos" do que o ressentimento. Este ponto constitui um dos pilares da sua moral aristocrática: o pobre odeia o rico. Este, por seu turno, em vez de odiar, tem tempo para coisas mais criativas. Logo, o rico é melhor que o pobre e mais vale que seja ele a mandar no mundo. Que se lixe o pobre!
Por fortuna do destino, diga-se que, nesta temporada 2011/2012, o futebol português tem-nos ensinado precisamente o contrário, e vinque-se este ponto: o nosso futebol não é para adormecer as massas em almofadas de clubite crónica e lençóis de ódios sem finalidade nem princípio nenhum que se veja. Não-não-não-não---não!! Nada disso. O futebol português é filosofia em movimento e nele se notam claramente aspectos psicológicos, existencialistas e fenomenológicos que nos ajudam a ter uma imagem infinitamente mais clara da espécie humana e da sua organização social. Como? Ora vejamos...
Comece-se por definir, de forma simplista e grosseira, o Ressentimento: será aquilo que controla a vida dos que, sofrendo de qualquer espécie de privação, se viram contra o grupo de indivíduos com posses e poder, pela simples razão de invejarem esses atributos. São, então, incapazes de se definirem senão em oposição ao outro: o adepto português desatento às propriedades iluministas do nosso futebol diria que "o Benfica é m€£§@" ou que o "Porto é pior que m€£§@" e por aí a fora. Dominados pelo ódio, mostram-se incapazes de ver mais além e de se deixar levar pela beleza transcendente das declarações dos treinadores portugueses, essa nova fonte inesgotável de orgulho nacional.
Do feio ressentimento surge a prima gira, de nome "Revolta". Enquanto o primeiro é um acto isolado de ódio gratuito e sem sentido para além de si mesmo, a revolta pressupõe a adesão a uma ideia, a uma visão de um mundo diferente. A revolta leva, então, o homem a dizer que este mundo não devia existir, não havendo ainda, no entanto, uma acção concertada para o mudar. Esta absoluta negação do real é exemplificada desde há longos anos pelos dirigentes do Sporting: falam ininterruptamente no "sistema" que, por sinal, está sempre contra eles, e na necessidade de o derrubar. Numerosos estudos metafísicos tendo por objecto as declarações destes senhores estão neste momento a ser desenvolvidos e serão sem dúvida publicados em revistas e obras de enorme prestígio e de consequências inigualáveis.
Por fim, temos a filha adolescente da revolta, chamada "Revolução". Esta passa das palavras aos actos: não pensa, faz! E leva tudo à frente no seu movimento transformador. O exemplo da mesma é o nosso querido Braga. Não precisa de milhões, de truques, de décimos segundos jogadores e muito menos de desculpas esfarrapadas sobre o penálti que não foi marcado mas devia ter sido. Nada disso. O Braga faz o seu trabalho, ultrapassa os grandes, e pouco barulho que não é para todos. Mas o que faz a "aristocracia" do futebol português, esses tais nobres livres do ressentimento? Entregam-se ao ódio contra os árbitros, contra as frutas, contra as novas regras, contra as regras antigas, enfim, contra tudo e contra todos. Incluindo contra si próprios, como se tem notado nos últimos jogos. E porquê? Porque o pequeno Braga é infinitamente mais nobre (e livre de vícios e de ódios) do que os milionários (e endividados) três grandes do nosso campeonato. Pode não terminar em primeiro lugar, mas já ganhou em tudo o que realmente importa.
Conclusão? Infelizmente, penso que vivemos na era do ressentimento. Isto acontece, pelo menos em parte, porque já não conseguimos (nem nos deixam) acreditar na revolta e nas revoluções, pelas razões que todos conhecemos e que também envolvem outros dois famosos bigodes. Deus "morreu" (tal como Jesus no final desta época) e deixou ao homem a responsabilidade de criar o seu próprio mundo. Não tendo resultado os grandes projectos (comunistas, fascistas e neoliberais) do século XX, é tempo de dar oportunidade às pequenas acções e às boas - embora insignificantes - ideias. Se o Braga consegue ser primeiro, nós também conseguimos. Deixe-se de lado o Obama, a Merkel, os bancos e as petrolíferas, o jornal das 9 e as grandes questões da actualidade, e concentremo-nos no "aqui e agora". Coloque-se na linha da frente a Graciosa, a nossa vida, as nossas terras, os nossos vinhos, o nosso mar e as nossas festas. Os outros são todos demasiado grandes e comem demasiada fast-food. Nós somos pequeninos. Façamos coisas pequeninas. Mas hoje, não amanhã. Com coragem, humildade e inocência q.b., façamos deste o século da formiga, com muita calma e persistência (sem esquecer que ser cigarra também sabe bem de vez em quando).